segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Nos teus braços

Olho para o relógio… são duas da manhã…

Algures no silêncio da noite, adormeces nos meus braços… silêncio esse apenas interrompido por uma televisão ligada num programa cujo conteúdo já não me recordo pois há muito que me deixei perder no teu rosto. E não vale a pena procurarem aquele que não quer ser encontrado… atraído pelo momento em que te deixas deslizar nos meus braços e soltas o teu corpo sobre o meu, libertando-te de tudo o que é consciente… os braços que cedem ao peso das tuas mãos outrora húmidas, a tua cabeça que cai lentamente amparada no meu peito que se desloca – ainda que sem qualquer apoio nas costas – , como se procurasse o teu calor, movido pela fragilidade do teu magro e delicado pescoço com a nobre missão de o aconchegar, para que fiques confortável… e os teus lábios…

Já viste duas pétalas que se movem lentamente ao sabor de uma suave brisa, ligeiramente húmidos como se tivessem atravessado uma densa maresia que surge do nada… são o teus lábios… tornam-se serenos, e entreabertos como se quisessem dizer algo…

…olho o teu rosto e vejo paz, não de espírito… mas de ti própria, como que aliviada por uma breve trégua numa dura e longa batalha que travas… o cansaço levou a melhor… por hoje, por pouco tempo… mas voltemos ao teu rosto…

Sempre gostei de anatomia… talvez devesse ter ido para médico para poder fazer uma tese baseada na perfeição de cada linha no teu rosto.

Traçar linhas geométricas, rectângulos de ouro e provar cientifica e matematicamente que, quem desenhou o teu rosto, fê-lo com a certeza que criava a maior das obras-primas… mesmo que inconscientemente… porque é na desapropriação do outro e do próximo que - graças a um sentido crítico libertino - nos permitimos a fazer algo único, raro, puro e desprovido das nossas próprias imperfeições…

Meu Deus, como és linda e como é bom poder dizê-lo com o meu olhar sem uma reprovação da tua parte… poder gritar-te ostensivamente com um brilho (ou dois…) nos olhos enquanto sorrio do quanto perfeita tu és… mas só eu é que o sei… nem tu própria o sabes e não quero que descubras… pois no dia que perceberes isso também podes aperceber-te do quanto és melhor do que eu, este trintão chato, aborrecido, vulgar e sem nada mais para te poder dar do que amor e carinho… é muito - diriam uns - … eu digo que é pouco, porque a minha obrigação é dar-te todo o carinho que mereces bem como o meu amor por ti – que no fundo nem sequer é meu, mas teu… inteiramente teu – e nada receber em troca pois aquilo que se oferece na vida deve ser feito de forma gratuita… só assim é uma oferta e não um negócio…

Olho para ti e depois disso continuo a olhar… não sei fazer outra coisa… nada me faz mais feliz do que te ter nos meus braços... pareces tão livre, tão feliz, tão tu… não imaginas a doçura dos teus olhos e a graciosidade das tuas pestanas, como voas enquanto estás nos meus braços… olho para ti e imagino o sonho que estás a ter… até que me apercebo que se alguém está a sonhar sou eu… não acordes, nem me acordes…  gosto de ver a tua paz… a tua perfeição…

Mereces ser livre, não viver aprisionada a mim quando há tanto para fazer, tanto para viver… às vezes sinto que não me pertences… parte de mim quer que partas… a outra parte exige que fiques comigo até ao fim… até ao fim… já te disse o quanto adoro quando dizes isso, quando escreves… quando o desenhas nos meus lábios… Mas o fim pode ser sempre e quando o fim deixar de o querer e nos libertar desse pacto que me humedece as mãos, prendendo-me ao até sempre… mas podes continuar a dize-lo, “até ao fim”… até ao fim…

É tarde, mas não quero ir embora… doí-me o pescoço… de facto, doí-me o corpo todo… ou doía, porque quando estou contigo, não há mais nada, nem dor, nem dúvidas… apenas a certeza de te querer ver feliz.

Beijei-te enquanto dormias… perdoa-me, foi mais forte do que eu… não sei quando te vou beijar novamente… não sei quando vou acordar do sonho, mas quando acordar quero adormecer novamente, mas desta vez sou eu que fico nos teus braços…