quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A génese da (in)felicidade

O que me faz triste…

… boa pergunta, às vezes pergunto-me mas depois penso no que me faz feliz…

Adoro acordar e sentir que há tanto para fazer… tanto para melhorar, sem nunca ter medo de falhar… porque não há nada melhor do que falhar... na verdade é quando falhamos que descobrimos que somos muito melhores que o que pensávamos ser até ali, basta força de vontade, sermos autênticos e seguir em frente... sem estarmos em bicos de pés...

Não há melhor do que cair e logo a seguir nos levantarmos – doridos e com feridas – com a determinação ingénua de que a partir de agora é que é...  nada nos pára...

Sou livre, sou feliz e vou soltar as amarras que o mundo que me rodeia insiste em tentar colocar... apenas com o meu sorriso… qual sorriso? Eu tenho um!… descobri ontem quando me mandei contra uma tabuleta à saída do comboio, enquanto todos à minha volta me olhavam com desdém e preocupados, soltei uma farta gargalhada enquanto a tabuleta da estação ainda abanava… ri-me de mim, de mim próprio… adoro rir-me de mim próprio, do quanto burro, estúpido e ridículo sou capaz de ser… sou eu… o gajo que ri com um hematoma na testa…

E o que me faz triste…

…tanta coisa, mas agora lembrei-me do meu nariz torto… é parecido com o do meu pai, só que torto… isso faz dele parecido mas não igual… é como a minha altura… dizem que é bom sermos baixos, supostamente não sofremos tanto das costas… grande treta, ainda há uns tempos não me mexia de dores por causa da má postura… inventam cada coisa… mas adoro ser baixo, confere-me uma simplicidade e permite-me passar despercebido na rua… é como o meu cabelo – ou falta dele –  não imaginas as piadas que eu não arranjo à sua custa através dessa coisa fantástica chamada ironia… Se o tivesse não podia gozar com ele porque mesmo que inventasse um penteado estúpido, ia passar por excêntrico e mesmo que me quisesse rir dele não podia… passava a ser pretensioso… era apenas mais um individuo com cabelo...

Mas o que me faz triste… ahh espera, já lá vamos… já viste o sol que está lá fora… podia ir correr agora ou ir ler para uma esplanada… tanto conhecimento enclausurado numa centena de folhas à espera de ser consumido pela minha curiosidade em saber mais, como chegámos aqui… Seremos os únicos idiotas neste vasto e infinito universo? 

As saudades que eu tenho do mar, adoro contempla-lo, de sentir o quanto eu sou insignificante perante algo cuja dimensão ultrapassa qualquer campo de visão, desafiando a curvatura da terra...

Raios, estou a trabalhar… quem me dera poder estar a escrever isto numa qualquer escadaria enquanto sujava as calças… ou desenhar… meu Deus como eu queria ir desenhar agora enquanto ouvia aquela música… vou ter de fazer isso um dia destes…

Está uma luz fantástica para tirar fotos… aposto que se me escondesse numa esquina enquanto fotografava pessoas ia ter fotos fantásticas… está um dia tão bonito e eu aqui metido…

Ia agora falar do que me faz ficar triste, mas lembrei-me de ti… e caramba… como me fazes feliz! 

Adoro quando andas com aqueles sapatos de salto alto e eu tenho de me esticar… amo o teu mau feitio… anseio por te beijar… odeio estar longe de ti, do teu olhar, mas mesmo isso não me faz infeliz, pois é óptimo ter saudades tuas… és tudo o que quero… 

Preciso de te dizer que te amo mas está tudo abafado aqui nos meus pulmões, retido num desassossego que me perturba… quero abraçar-te sem nunca mais te largar para não te esqueceres do que sinto, não vá perder-te novamente… sou tonto, eu sei… mas experimenta deixar o teu bem mais precioso, que mais gostas junto de um barco à deriva e ir embora… é assim que me sinto. 

Não é ciúme ou falta de confiança… é só porque te amo…

Mas deixa-me falar do que me faz infeliz…

...

… assim de repente, tenho andado tão ocupado com o que me faz feliz que não me recordo de nada que me faça ficar triste…


… lembrei-me agora… não tenho o teu sorriso… 

Acho que o deixei no barco… achas que ainda lá está?

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Corpo estranho


“… Ritmo: Zona Azul…

- “Raios!...” – penso eu, enquanto acelero uma vez mais o passo de corrida... O smartphone diz-me que estou a abrandar o ritmo... Não pode ser, o meu corpo pode dar mais, quer dar mais… a máquina não pode parar…

Adoro sentir que posso dar mais, explorar o limite do esforço que é baseado numa dor que tão depressa aparece como desaparece… como que só para avisar que o esforço não é gratuito e que requer uma boa dose de sofrimento em troca… sem nunca ser um martírio, antes pelo contrário… é um primeiro passo para o prazer de superar a dor.

O meu corpo – longe de ser perfeito e carregado de imperfeições, muitas delas infligidas por mim próprio – é o que de mais valioso tenho, de tão falível, frágil e cujo prazo de vida que é uma incógnita… é meu, sou eu, até quando… só ele o pode determinar… tem esse direito.

O corpo é o que queremos que ele seja… é moldado por perspectivas, a nossa e a que deixamos que os outros tenham e o quanto importante isso é para nós… a mim só me interessa a primeira, não que não exista brio para terceiros… mas é um olhar que não me aprisiona em mim próprio… porque eu não vivo por eles, não corro por eles, faço-o por mim. Não estou à espera deles na meta a bater palmas pelo meu esforço, apenas pelo tempo que demorei a chegar… não lhes devo o meu esforço nem as minhas conquistas...

A melhor forma que tenho de o respeitar e retribuir o que o ele me permite fazer e viver, é desfrutar dele, tirar o máximo partido das suas imperfeições… são o que me tornam único.

Aquela cicatriz, aquele dedo que me dói sempre que faço um movimento mais esforçado… de tanto massacrado que está… Acordo de manhã e não o sinto, a dor desaparece… pronto para me magoar novamente…

Correr mantém-me forte e e concentrado... liberta-me de tudo o que me tenta prender o espírito... 

Aproveito tudo o que o meu corpo me permite alcançar... para que naquele pequeno momento, por breves segundos… não há absolutamente mais nada para além da vontade de viver e de desfrutar de cada lufada de ar inspirado e expirado ao ritmo de uma música... sem preocupações ou problemas de qualquer natureza…

Correr torna-se num momento egoísta, onde liberto frustrações, mágoas e tristezas que ousam importunar-me a mente… naquele momento estou efectivamente sozinho, nada mais existe, porque só existo eu… não estou à espera de um sorriso pelo caminho que depois não surge… só existe o meu suor, que escorre pelo meu corpo e a dor que me faz sentir vivo…

“… Ritmo: Zona Verde…” …

Por um instante esboço o meu sorriso vazio, esgotado de dependências e de expectativas… é a satisfação de por uma vez naquele dia não estar depender de nada nem de ninguém para estar feliz… não estou à espera de nada dos outros… o meu corpo respondeu ao esforço… devo-lhe tudo… a chegada compensou a má disposição e a vontade de vomitar… o sorriso é o meu prémio.

Agora só quero comer, o meu corpo fez-me sorrir, alcançar mais uma meta… merece tudo… é a melhor prisão deste mundo… enquanto ele quiser viver, vou fazê-lo sentir vivo... a cama e um quarto escuro não são opções...

Um dia alguém me disse… “não sabes viver sozinho…” - claro que sei!... não soube fazer outra coisa toda a vida … mesmo quando aparentemente não estava... mas às vezes é bom sentir que está alguém na meta… mesmo que não esteja… ainda que não exista aquele sorrio no caminho.

“… Exercício Terminado…” …

… 00:50:49 … amanhã vou fazer melhor, eu sei que vou… não preciso de mais ninguém para o fazer....

...só preciso ser o meu corpo… não de ser um corpo estranho...

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Mãos Frias


As mãos estão frias... "mãos frias, coração quente"... é o que dizem... peço desculpa pela apropriação de palavras alheias, não gosto de tomar como minhas expressões que não o são para dizer algo que nasce do meu eu, como qualquer palavra que devia ser proferida com uma honestidade e originalidade intrínseca...

É engraçado... não tenho frio... estas mãos deviam estar quentes...

A temperatura do nosso corpo às vezes não se coaduna com o tempo, seja ele frio ou quente, estejamos nós agasalhados ou não...

Chegou o Outono... talvez seja isso. Haverá estação mais confusa? Por vezes chove, depois as gotas que brotam das nuvens dão lugar a um sol radioso que nos deixa com calor, obrigando-nos a despir aquele casaco que gostamos e do qual dependia toda a nossa indumentária que escolhemos após 10 minutos a contemplar o castelo de roupa que gemina da cadeira no canto do quarto...

…ficamos como que despidos, sem o estar, na verdade... perdemos parte daquele aconchego que nos fazia sentir seguros de nós mesmos. Subitamente esse sol radioso que nos fazia sentir confiantes e confortáveis desaparece, deixando no seu lugar uma luz fosca e um arrepio na pele, uma dor de barriga...

Não podia ser Verão o ano inteiro?

Correr à chuva liberta-nos, transcende-nos e, por breves minutos, estamos no topo de um mundo egoísta e egocêntrico onde existimos apenas nós e a chuva que se apodera do nosso corpo... mas quando estamos inertes sob ela, ficamos reféns de uma tristeza profunda, escravos do tempo que se arrasta e que nos relativiza numa apatia... como que solidários com as flores que choram, pétalas de cores vibrantes que deixam escorrer lágrimas sobre si, guardando pequenas gotas, só para elas…

Não podia ser Verão o ano inteiro?

Preservar aquele calor que recebia de ti... aquele sorriso... sim eu sei, não pode ser sempre Verão... eu entendo isso, mas não quero entender... dar tempo ao tempo não me aquece as mãos e as folhas que se acumulam nos passeios não vão voltar para os seus ramos nem serão novamente verdes e belas...

O tempo não trás o que se deixou para trás, resta o vento para levar consigo as folhas secas, desintegrando-as, tornando-as matéria morta, vazias de alma e desprovidas de alegria... o fim de um ciclo... uma renovação.

O velho dá lugar ao novo e o que se rendeu ao tempo e à sua passagem dá lugar a quem ignora o tempo e o seu significado, fazendo de si um significante que tudo desconhece na hora de nascer... próprio da ingenuidade de uma juventude virgem... tudo é novo, tudo é perfeito, nada nos pára... excepto… nós próprios, quando esquecemos que o tempo não é mais do que o que fazemos com ele... quando nada há mais a fazer, restando-nos apenas as recordações do que vivemos, do que não deixámos para o amanhã, que estava agendado para amanhã, não para hoje, véspera do dia que nunca chegou, porque pensámos que havia um tempo para isso... era o que nos tinham dito, não era?...

Eu sei, à mais de uma década que mo disseram... era eu uma jovem folha, guardando as lágrimas de mim próprio, usando-as para manter frescos os sonhos de que fazia parte a árvore que me carrega... hoje fiz desses sonhos raízes que me seguram com a firmeza do que trago no coração, a mesma força para continuar a acreditar que o Verão nunca termina... que apenas trás consigo o Outono para levar as folhas fracas em fé e pobres em espírito, trazendo de seguida o Inverno rigoroso para nos colocar à prova... e quando pensamos que não nos restam mais forças, eis que chega a Primavera que não é mais do que um convite para um Verão que nunca deixou de o ser.

Não podia ser Verão o ano inteiro?

Podia, mas alguém achou que devia haver um tempo para ele...

Eu - chato e teimoso que sou - vou continuar a ignorar o Outono, calçar as sapatilhas e correr enquanto chove porque, ao contrário dos que andam simplesmente à chuva, eu trago-a comigo, da mesma forma que as folhas o fazem... com o mesmo sorriso de sempre, com a mesma vontade de viver que tenho de amar, pois quando deixar de ser assim, irei secar como todas as folhas que se deixaram cair... nesse dia o Verão terminará para mim, não por vontade do destino, mas porque me rendi a ele, dando lugar a outro ser mais corajoso e capaz de fazer os outros felizes, alguém ingénuo como outrora soube ser, capaz de sobreviver a tudo, excepto à impotência de ser o que sou, deixando-me maniatar no que os outros querem que eu seja ou não, e faça... deixando de viver para simplesmente existir...

Não podia ser Verão o ano inteiro?

Claro que pode…

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Silêncio



De olhos fechados, olho o silêncio… apreciando a sua pureza impenetrada pelo som que o polui, preservo-o para que as memórias que guardo comigo possam flutuar livremente nas águas calmas dessa melodia inaudível que - abjecta ao som das palavras - me permite resgatá-las de um passado mais ou menos distante...

Da janela entreaberta sai um tímido som metálico da preciana, como que num manifesto contra a paz de espirito em que estou mergulhado e do qual não quero sair, porque não tenho para onde ir e quem abraçar… não quero sair daqui, deixem-me aqui… porque daqui só quero sair embalado nos braços da mulher que amo.

Levanto o olhar para a janela em sinal de reprovação pela interrupção de um momento que era perfeito… um momento que era uma prosa, composta por palavras que faziam todo o sentido… que rimavam e que, de repente caíram pelo chão perdidas, estilhaçadas pelo barulho que as levou de mim… e agora… agora sinto a tua falta…

Fecho novamente os olhos e vejo-te uma vez mais… no silêncio dos afectos, no calor do meu corpo, apenas denunciada pelo brilho dos meus olhos… sim és tu… reconheço a tua silhueta magra, linhas curvas disfarçadas aqui e acolá por imperfeições perfeitas… reféns de um dogma que te aprisiona e do qual te queres e exiges libertar sozinha, ainda que presa pelo medo da aceitação, medo de errar e de não estar ao nível que pensas ser-te exigido por já não seres mais uma criança… queres ser a mulher que és mas que desconheces ser… o teu eu, que ainda não te foi apresentado porque insistes em querer ver algo diferente… és o que és, o que eu quero, só para mim com o egoísmo próprio de quem ama.

Quero dizer que te amo mas não posso… vai estragar o silêncio que é apenas teu…

… o texto que estou a escrever, enquanto apanho as palavras do chão não é perfeito… a obra não tem de ser perfeita - nunca o é - mas tem de fingir que o é, ao som dos lábios de quem a lê...  tem de estar à altura dos teus, ainda que estes não o ditem… pois a eles não lhes é pedido ou exigido que o façam… estão destinados a ouvir enquanto escrevem versos de amor no silencio de um olhar com as pálpebras fechadas protegendo-o da luz, que não deixa ver e que encandeia o espírito… não têm de se ver, apenas têm de te sentir… porque o que sinto não se vê… seria como ver-me naquilo de que sou feito… de ti.

Sentir as palavras que não são proferidas mas que são escritas em código pelo teu toque na minha pele… o que dizem, gemina entre a minha alma e os meus afectos, preso algures entre os dois, mas nunca refém de nenhum deles… apenas cúmplices do que sou e do que trago comigo…

E o que sinto… meu Deus, onde estão as palavras que me caíram no chão que que tinham aquela estrofe perfeita para ti… terei de esperar por ti novamente ao por do sol, onde mora a paz de que é feito o meu silêncio, para que o barulho das ondas dêem lugar à tua respiração ofegante e a brisa que me envolve se torne a tua envolvência em mim…

Porque é no silêncio que te encontro quando não estás comigo e que me faz sentir completo, sem nunca o estar… pelo menos até ao momento em que te toco e o silêncio das palavras e a escuridão da luz dão lugar a um leve arrepio na pele e um beijo no teu pescoço.

Por momentos, posso-te perder ao som de uma música, na distância de um gesto... mas estarás eternamente no meu silêncio… porque é nesse momento em que és tudo o que eu gostaria de ter e não tenho… ao mesmo tempo que é tudo o que consegui guardar de ti… e tudo se resume à tua ausência… o teu lugar por preencher mas que será eternamente teu e insubstituível… esse vazio é a cama que espera por ti, a minha mão que espera pela tua... é o nosso silêncio.