As mãos estão frias... "mãos frias, coração quente"... é o que dizem... peço desculpa pela apropriação de palavras alheias, não gosto de tomar como minhas expressões que não o são para dizer algo que nasce do meu eu, como qualquer palavra que devia ser proferida com uma honestidade e originalidade intrínseca...
É engraçado... não tenho frio... estas mãos deviam estar quentes...
A temperatura do nosso corpo às vezes não se coaduna com o tempo, seja ele frio ou quente, estejamos nós agasalhados ou não...
Chegou o Outono... talvez seja isso. Haverá estação mais confusa? Por vezes chove, depois as gotas que brotam das nuvens dão lugar a um sol radioso que nos deixa com calor, obrigando-nos a despir aquele casaco que gostamos e do qual dependia toda a nossa indumentária que escolhemos após 10 minutos a contemplar o castelo de roupa que gemina da cadeira no canto do quarto...
…ficamos como que despidos, sem o estar, na verdade... perdemos parte daquele aconchego que nos fazia sentir seguros de nós mesmos. Subitamente esse sol radioso que nos fazia sentir confiantes e confortáveis desaparece, deixando no seu lugar uma luz fosca e um arrepio na pele, uma dor de barriga...
Não podia ser Verão o ano inteiro?
Correr à chuva liberta-nos, transcende-nos e, por breves minutos, estamos no topo de um mundo egoísta e egocêntrico onde existimos apenas nós e a chuva que se apodera do nosso corpo... mas quando estamos inertes sob ela, ficamos reféns de uma tristeza profunda, escravos do tempo que se arrasta e que nos relativiza numa apatia... como que solidários com as flores que choram, pétalas de cores vibrantes que deixam escorrer lágrimas sobre si, guardando pequenas gotas, só para elas…
Não podia ser Verão o ano inteiro?
Preservar aquele calor que recebia de ti... aquele sorriso... sim eu sei, não pode ser sempre Verão... eu entendo isso, mas não quero entender... dar tempo ao tempo não me aquece as mãos e as folhas que se acumulam nos passeios não vão voltar para os seus ramos nem serão novamente verdes e belas...
O tempo não trás o que se deixou para trás, resta o vento para levar consigo as folhas secas, desintegrando-as, tornando-as matéria morta, vazias de alma e desprovidas de alegria... o fim de um ciclo... uma renovação.
O velho dá lugar ao novo e o que se rendeu ao tempo e à sua passagem dá lugar a quem ignora o tempo e o seu significado, fazendo de si um significante que tudo desconhece na hora de nascer... próprio da ingenuidade de uma juventude virgem... tudo é novo, tudo é perfeito, nada nos pára... excepto… nós próprios, quando esquecemos que o tempo não é mais do que o que fazemos com ele... quando nada há mais a fazer, restando-nos apenas as recordações do que vivemos, do que não deixámos para o amanhã, que estava agendado para amanhã, não para hoje, véspera do dia que nunca chegou, porque pensámos que havia um tempo para isso... era o que nos tinham dito, não era?...
Eu sei, à mais de uma década que mo disseram... era eu uma jovem folha, guardando as lágrimas de mim próprio, usando-as para manter frescos os sonhos de que fazia parte a árvore que me carrega... hoje fiz desses sonhos raízes que me seguram com a firmeza do que trago no coração, a mesma força para continuar a acreditar que o Verão nunca termina... que apenas trás consigo o Outono para levar as folhas fracas em fé e pobres em espírito, trazendo de seguida o Inverno rigoroso para nos colocar à prova... e quando pensamos que não nos restam mais forças, eis que chega a Primavera que não é mais do que um convite para um Verão que nunca deixou de o ser.
Não podia ser Verão o ano inteiro?
Podia, mas alguém achou que devia haver um tempo para ele...
Eu - chato e teimoso que sou - vou continuar a ignorar o Outono, calçar as sapatilhas e correr enquanto chove porque, ao contrário dos que andam simplesmente à chuva, eu trago-a comigo, da mesma forma que as folhas o fazem... com o mesmo sorriso de sempre, com a mesma vontade de viver que tenho de amar, pois quando deixar de ser assim, irei secar como todas as folhas que se deixaram cair... nesse dia o Verão terminará para mim, não por vontade do destino, mas porque me rendi a ele, dando lugar a outro ser mais corajoso e capaz de fazer os outros felizes, alguém ingénuo como outrora soube ser, capaz de sobreviver a tudo, excepto à impotência de ser o que sou, deixando-me maniatar no que os outros querem que eu seja ou não, e faça... deixando de viver para simplesmente existir...
Não podia ser Verão o ano inteiro?
Claro que pode…
É engraçado... não tenho frio... estas mãos deviam estar quentes...
A temperatura do nosso corpo às vezes não se coaduna com o tempo, seja ele frio ou quente, estejamos nós agasalhados ou não...
Chegou o Outono... talvez seja isso. Haverá estação mais confusa? Por vezes chove, depois as gotas que brotam das nuvens dão lugar a um sol radioso que nos deixa com calor, obrigando-nos a despir aquele casaco que gostamos e do qual dependia toda a nossa indumentária que escolhemos após 10 minutos a contemplar o castelo de roupa que gemina da cadeira no canto do quarto...
…ficamos como que despidos, sem o estar, na verdade... perdemos parte daquele aconchego que nos fazia sentir seguros de nós mesmos. Subitamente esse sol radioso que nos fazia sentir confiantes e confortáveis desaparece, deixando no seu lugar uma luz fosca e um arrepio na pele, uma dor de barriga...
Não podia ser Verão o ano inteiro?
Correr à chuva liberta-nos, transcende-nos e, por breves minutos, estamos no topo de um mundo egoísta e egocêntrico onde existimos apenas nós e a chuva que se apodera do nosso corpo... mas quando estamos inertes sob ela, ficamos reféns de uma tristeza profunda, escravos do tempo que se arrasta e que nos relativiza numa apatia... como que solidários com as flores que choram, pétalas de cores vibrantes que deixam escorrer lágrimas sobre si, guardando pequenas gotas, só para elas…
Não podia ser Verão o ano inteiro?
Preservar aquele calor que recebia de ti... aquele sorriso... sim eu sei, não pode ser sempre Verão... eu entendo isso, mas não quero entender... dar tempo ao tempo não me aquece as mãos e as folhas que se acumulam nos passeios não vão voltar para os seus ramos nem serão novamente verdes e belas...
O tempo não trás o que se deixou para trás, resta o vento para levar consigo as folhas secas, desintegrando-as, tornando-as matéria morta, vazias de alma e desprovidas de alegria... o fim de um ciclo... uma renovação.
O velho dá lugar ao novo e o que se rendeu ao tempo e à sua passagem dá lugar a quem ignora o tempo e o seu significado, fazendo de si um significante que tudo desconhece na hora de nascer... próprio da ingenuidade de uma juventude virgem... tudo é novo, tudo é perfeito, nada nos pára... excepto… nós próprios, quando esquecemos que o tempo não é mais do que o que fazemos com ele... quando nada há mais a fazer, restando-nos apenas as recordações do que vivemos, do que não deixámos para o amanhã, que estava agendado para amanhã, não para hoje, véspera do dia que nunca chegou, porque pensámos que havia um tempo para isso... era o que nos tinham dito, não era?...
Eu sei, à mais de uma década que mo disseram... era eu uma jovem folha, guardando as lágrimas de mim próprio, usando-as para manter frescos os sonhos de que fazia parte a árvore que me carrega... hoje fiz desses sonhos raízes que me seguram com a firmeza do que trago no coração, a mesma força para continuar a acreditar que o Verão nunca termina... que apenas trás consigo o Outono para levar as folhas fracas em fé e pobres em espírito, trazendo de seguida o Inverno rigoroso para nos colocar à prova... e quando pensamos que não nos restam mais forças, eis que chega a Primavera que não é mais do que um convite para um Verão que nunca deixou de o ser.
Não podia ser Verão o ano inteiro?
Podia, mas alguém achou que devia haver um tempo para ele...
Eu - chato e teimoso que sou - vou continuar a ignorar o Outono, calçar as sapatilhas e correr enquanto chove porque, ao contrário dos que andam simplesmente à chuva, eu trago-a comigo, da mesma forma que as folhas o fazem... com o mesmo sorriso de sempre, com a mesma vontade de viver que tenho de amar, pois quando deixar de ser assim, irei secar como todas as folhas que se deixaram cair... nesse dia o Verão terminará para mim, não por vontade do destino, mas porque me rendi a ele, dando lugar a outro ser mais corajoso e capaz de fazer os outros felizes, alguém ingénuo como outrora soube ser, capaz de sobreviver a tudo, excepto à impotência de ser o que sou, deixando-me maniatar no que os outros querem que eu seja ou não, e faça... deixando de viver para simplesmente existir...
Não podia ser Verão o ano inteiro?
Claro que pode…

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