De olhos fechados, olho o silêncio… apreciando a sua pureza
impenetrada pelo som que o polui, preservo-o para que as memórias que guardo
comigo possam flutuar livremente nas águas calmas dessa melodia inaudível que -
abjecta ao som das palavras - me permite resgatá-las de um passado mais ou
menos distante...
Da janela entreaberta sai um tímido som metálico da preciana,
como que num manifesto contra a paz de espirito em que estou mergulhado e do
qual não quero sair, porque não tenho para onde ir e quem abraçar… não quero
sair daqui, deixem-me aqui… porque daqui só quero sair embalado nos braços da
mulher que amo.
Levanto o olhar para a janela em sinal de reprovação pela
interrupção de um momento que era perfeito… um momento que era uma prosa,
composta por palavras que faziam todo o sentido… que rimavam e que, de repente caíram
pelo chão perdidas, estilhaçadas pelo barulho que as levou de mim… e agora…
agora sinto a tua falta…
Fecho novamente os olhos e vejo-te uma vez mais… no silêncio
dos afectos, no calor do meu corpo, apenas denunciada pelo brilho dos meus
olhos… sim és tu… reconheço a tua silhueta magra, linhas curvas disfarçadas
aqui e acolá por imperfeições perfeitas… reféns de um dogma que te aprisiona e do qual
te queres e exiges libertar sozinha, ainda que presa pelo medo da aceitação, medo
de errar e de não estar ao nível que pensas ser-te exigido por já não seres mais uma criança… queres ser a mulher que és mas que desconheces ser… o teu eu,
que ainda não te foi apresentado porque insistes em querer ver algo diferente… és o que és, o que eu quero, só para mim com o egoísmo próprio de quem ama.
Quero dizer que te amo mas não posso… vai estragar o silêncio
que é apenas teu…
… o texto que estou a escrever, enquanto apanho as
palavras do chão não é perfeito… a obra não tem de ser perfeita - nunca o é -
mas tem de fingir que o é, ao som dos lábios de quem a lê... tem de estar à altura dos teus, ainda
que estes não o ditem… pois a eles não lhes é pedido ou exigido que o façam… estão
destinados a ouvir enquanto escrevem versos de amor no silencio
de um olhar com as pálpebras fechadas protegendo-o da luz, que não deixa
ver e que encandeia o espírito… não têm de se ver, apenas têm de te sentir… porque o que sinto não se vê… seria como ver-me naquilo de que sou feito… de ti.
Sentir as palavras que não são proferidas mas que são
escritas em código pelo teu toque na minha pele… o que dizem, gemina entre a minha
alma e os meus afectos, preso algures entre os dois, mas nunca refém de nenhum deles… apenas cúmplices do que sou e do que trago comigo…
E o que sinto… meu Deus, onde estão as palavras que me caíram
no chão que que tinham aquela estrofe perfeita para ti… terei de esperar por ti
novamente ao por do sol, onde mora a paz de que é feito o meu silêncio, para
que o barulho das ondas dêem lugar à tua respiração ofegante e a brisa que me envolve se torne
a tua envolvência em mim…
Porque é no silêncio que te encontro quando não estás comigo
e que me faz sentir completo, sem nunca o estar… pelo menos até ao momento em
que te toco e o silêncio das palavras e a escuridão da luz dão lugar a um leve
arrepio na pele e um beijo no teu pescoço.
Por momentos, posso-te perder ao som de uma música, na distância de um gesto... mas
estarás eternamente no meu silêncio… porque é nesse momento em que és tudo o
que eu gostaria de ter e não tenho… ao mesmo tempo que é tudo o que consegui
guardar de ti… e tudo se resume à tua ausência… o teu lugar por preencher mas
que será eternamente teu e insubstituível… esse vazio é a cama que espera por ti, a minha mão que espera pela tua... é o nosso silêncio.

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