“… Ritmo: Zona Azul…”
- “Raios!...” – penso eu, enquanto acelero uma vez mais o
passo de corrida... O smartphone diz-me que estou a abrandar o ritmo... Não pode
ser, o meu corpo pode dar mais, quer dar mais… a máquina não pode parar…
Adoro sentir que posso dar mais, explorar o limite do
esforço que é baseado numa dor que tão depressa aparece como desaparece… como
que só para avisar que o esforço não é gratuito e que requer uma boa dose de
sofrimento em troca… sem nunca ser um martírio, antes pelo contrário… é um primeiro
passo para o prazer de superar a dor.
O meu corpo – longe de ser perfeito e carregado de
imperfeições, muitas delas infligidas por mim próprio – é o que de mais valioso
tenho, de tão falível, frágil e cujo prazo de vida que é uma incógnita… é meu,
sou eu, até quando… só ele o pode determinar… tem esse direito.
O corpo é o que queremos que ele seja… é moldado por
perspectivas, a nossa e a que deixamos que os outros tenham e o quanto
importante isso é para nós… a mim só me interessa a primeira, não que não
exista brio para terceiros… mas é um olhar que não me aprisiona em mim próprio…
porque eu não vivo por eles, não corro por eles, faço-o por mim. Não estou à
espera deles na meta a bater palmas pelo meu esforço, apenas pelo tempo que
demorei a chegar… não lhes devo o meu esforço nem as minhas conquistas...
A melhor forma que tenho de o respeitar e retribuir o que o
ele me permite fazer e viver, é desfrutar dele, tirar o máximo partido das suas
imperfeições… são o que me tornam único.
Aquela cicatriz, aquele dedo que me dói sempre que faço um movimento mais esforçado… de tanto massacrado que está… Acordo de manhã e não o sinto, a dor desaparece… pronto para me magoar novamente…
Correr mantém-me forte e e concentrado... liberta-me de tudo
o que me tenta prender o espírito...
Aproveito tudo o que o meu corpo me
permite alcançar... para que naquele pequeno momento, por breves segundos… não
há absolutamente mais nada para além da vontade de viver e de desfrutar de cada
lufada de ar inspirado e expirado ao ritmo de uma música... sem preocupações ou
problemas de qualquer natureza…
Correr torna-se num momento egoísta, onde liberto frustrações,
mágoas e tristezas que ousam importunar-me a mente… naquele momento estou efectivamente
sozinho, nada mais existe, porque só existo eu… não estou à espera de um
sorriso pelo caminho que depois não surge… só existe o meu suor, que escorre
pelo meu corpo e a dor que me faz sentir vivo…
“… Ritmo: Zona Verde…” …
Por um instante esboço o meu sorriso vazio, esgotado de dependências
e de expectativas… é a satisfação de por uma vez naquele dia não estar depender
de nada nem de ninguém para estar feliz… não estou à espera de nada dos outros…
o meu corpo respondeu ao esforço… devo-lhe tudo… a chegada compensou a má
disposição e a vontade de vomitar… o sorriso é o meu prémio.
Agora só quero comer, o meu corpo fez-me sorrir, alcançar mais uma meta… merece tudo… é a melhor prisão deste mundo… enquanto ele quiser viver, vou fazê-lo sentir vivo... a cama e um quarto escuro não são opções...
Agora só quero comer, o meu corpo fez-me sorrir, alcançar mais uma meta… merece tudo… é a melhor prisão deste mundo… enquanto ele quiser viver, vou fazê-lo sentir vivo... a cama e um quarto escuro não são opções...
Um dia alguém me disse… “não
sabes viver sozinho…” - claro que sei!...
não soube fazer outra coisa toda a vida … mesmo quando aparentemente não
estava... mas às vezes é bom sentir que está alguém na meta… mesmo que não
esteja… ainda que não exista aquele sorrio no caminho.
“… Exercício Terminado…”
…
… 00:50:49 … amanhã vou fazer melhor, eu sei que vou… não
preciso de mais ninguém para o fazer....
...só preciso ser o meu corpo… não de ser um corpo estranho...
...só preciso ser o meu corpo… não de ser um corpo estranho...

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