segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Nos teus braços

Olho para o relógio… são duas da manhã…

Algures no silêncio da noite, adormeces nos meus braços… silêncio esse apenas interrompido por uma televisão ligada num programa cujo conteúdo já não me recordo pois há muito que me deixei perder no teu rosto. E não vale a pena procurarem aquele que não quer ser encontrado… atraído pelo momento em que te deixas deslizar nos meus braços e soltas o teu corpo sobre o meu, libertando-te de tudo o que é consciente… os braços que cedem ao peso das tuas mãos outrora húmidas, a tua cabeça que cai lentamente amparada no meu peito que se desloca – ainda que sem qualquer apoio nas costas – , como se procurasse o teu calor, movido pela fragilidade do teu magro e delicado pescoço com a nobre missão de o aconchegar, para que fiques confortável… e os teus lábios…

Já viste duas pétalas que se movem lentamente ao sabor de uma suave brisa, ligeiramente húmidos como se tivessem atravessado uma densa maresia que surge do nada… são o teus lábios… tornam-se serenos, e entreabertos como se quisessem dizer algo…

…olho o teu rosto e vejo paz, não de espírito… mas de ti própria, como que aliviada por uma breve trégua numa dura e longa batalha que travas… o cansaço levou a melhor… por hoje, por pouco tempo… mas voltemos ao teu rosto…

Sempre gostei de anatomia… talvez devesse ter ido para médico para poder fazer uma tese baseada na perfeição de cada linha no teu rosto.

Traçar linhas geométricas, rectângulos de ouro e provar cientifica e matematicamente que, quem desenhou o teu rosto, fê-lo com a certeza que criava a maior das obras-primas… mesmo que inconscientemente… porque é na desapropriação do outro e do próximo que - graças a um sentido crítico libertino - nos permitimos a fazer algo único, raro, puro e desprovido das nossas próprias imperfeições…

Meu Deus, como és linda e como é bom poder dizê-lo com o meu olhar sem uma reprovação da tua parte… poder gritar-te ostensivamente com um brilho (ou dois…) nos olhos enquanto sorrio do quanto perfeita tu és… mas só eu é que o sei… nem tu própria o sabes e não quero que descubras… pois no dia que perceberes isso também podes aperceber-te do quanto és melhor do que eu, este trintão chato, aborrecido, vulgar e sem nada mais para te poder dar do que amor e carinho… é muito - diriam uns - … eu digo que é pouco, porque a minha obrigação é dar-te todo o carinho que mereces bem como o meu amor por ti – que no fundo nem sequer é meu, mas teu… inteiramente teu – e nada receber em troca pois aquilo que se oferece na vida deve ser feito de forma gratuita… só assim é uma oferta e não um negócio…

Olho para ti e depois disso continuo a olhar… não sei fazer outra coisa… nada me faz mais feliz do que te ter nos meus braços... pareces tão livre, tão feliz, tão tu… não imaginas a doçura dos teus olhos e a graciosidade das tuas pestanas, como voas enquanto estás nos meus braços… olho para ti e imagino o sonho que estás a ter… até que me apercebo que se alguém está a sonhar sou eu… não acordes, nem me acordes…  gosto de ver a tua paz… a tua perfeição…

Mereces ser livre, não viver aprisionada a mim quando há tanto para fazer, tanto para viver… às vezes sinto que não me pertences… parte de mim quer que partas… a outra parte exige que fiques comigo até ao fim… até ao fim… já te disse o quanto adoro quando dizes isso, quando escreves… quando o desenhas nos meus lábios… Mas o fim pode ser sempre e quando o fim deixar de o querer e nos libertar desse pacto que me humedece as mãos, prendendo-me ao até sempre… mas podes continuar a dize-lo, “até ao fim”… até ao fim…

É tarde, mas não quero ir embora… doí-me o pescoço… de facto, doí-me o corpo todo… ou doía, porque quando estou contigo, não há mais nada, nem dor, nem dúvidas… apenas a certeza de te querer ver feliz.

Beijei-te enquanto dormias… perdoa-me, foi mais forte do que eu… não sei quando te vou beijar novamente… não sei quando vou acordar do sonho, mas quando acordar quero adormecer novamente, mas desta vez sou eu que fico nos teus braços…


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

A génese da (in)felicidade

O que me faz triste…

… boa pergunta, às vezes pergunto-me mas depois penso no que me faz feliz…

Adoro acordar e sentir que há tanto para fazer… tanto para melhorar, sem nunca ter medo de falhar… porque não há nada melhor do que falhar... na verdade é quando falhamos que descobrimos que somos muito melhores que o que pensávamos ser até ali, basta força de vontade, sermos autênticos e seguir em frente... sem estarmos em bicos de pés...

Não há melhor do que cair e logo a seguir nos levantarmos – doridos e com feridas – com a determinação ingénua de que a partir de agora é que é...  nada nos pára...

Sou livre, sou feliz e vou soltar as amarras que o mundo que me rodeia insiste em tentar colocar... apenas com o meu sorriso… qual sorriso? Eu tenho um!… descobri ontem quando me mandei contra uma tabuleta à saída do comboio, enquanto todos à minha volta me olhavam com desdém e preocupados, soltei uma farta gargalhada enquanto a tabuleta da estação ainda abanava… ri-me de mim, de mim próprio… adoro rir-me de mim próprio, do quanto burro, estúpido e ridículo sou capaz de ser… sou eu… o gajo que ri com um hematoma na testa…

E o que me faz triste…

…tanta coisa, mas agora lembrei-me do meu nariz torto… é parecido com o do meu pai, só que torto… isso faz dele parecido mas não igual… é como a minha altura… dizem que é bom sermos baixos, supostamente não sofremos tanto das costas… grande treta, ainda há uns tempos não me mexia de dores por causa da má postura… inventam cada coisa… mas adoro ser baixo, confere-me uma simplicidade e permite-me passar despercebido na rua… é como o meu cabelo – ou falta dele –  não imaginas as piadas que eu não arranjo à sua custa através dessa coisa fantástica chamada ironia… Se o tivesse não podia gozar com ele porque mesmo que inventasse um penteado estúpido, ia passar por excêntrico e mesmo que me quisesse rir dele não podia… passava a ser pretensioso… era apenas mais um individuo com cabelo...

Mas o que me faz triste… ahh espera, já lá vamos… já viste o sol que está lá fora… podia ir correr agora ou ir ler para uma esplanada… tanto conhecimento enclausurado numa centena de folhas à espera de ser consumido pela minha curiosidade em saber mais, como chegámos aqui… Seremos os únicos idiotas neste vasto e infinito universo? 

As saudades que eu tenho do mar, adoro contempla-lo, de sentir o quanto eu sou insignificante perante algo cuja dimensão ultrapassa qualquer campo de visão, desafiando a curvatura da terra...

Raios, estou a trabalhar… quem me dera poder estar a escrever isto numa qualquer escadaria enquanto sujava as calças… ou desenhar… meu Deus como eu queria ir desenhar agora enquanto ouvia aquela música… vou ter de fazer isso um dia destes…

Está uma luz fantástica para tirar fotos… aposto que se me escondesse numa esquina enquanto fotografava pessoas ia ter fotos fantásticas… está um dia tão bonito e eu aqui metido…

Ia agora falar do que me faz ficar triste, mas lembrei-me de ti… e caramba… como me fazes feliz! 

Adoro quando andas com aqueles sapatos de salto alto e eu tenho de me esticar… amo o teu mau feitio… anseio por te beijar… odeio estar longe de ti, do teu olhar, mas mesmo isso não me faz infeliz, pois é óptimo ter saudades tuas… és tudo o que quero… 

Preciso de te dizer que te amo mas está tudo abafado aqui nos meus pulmões, retido num desassossego que me perturba… quero abraçar-te sem nunca mais te largar para não te esqueceres do que sinto, não vá perder-te novamente… sou tonto, eu sei… mas experimenta deixar o teu bem mais precioso, que mais gostas junto de um barco à deriva e ir embora… é assim que me sinto. 

Não é ciúme ou falta de confiança… é só porque te amo…

Mas deixa-me falar do que me faz infeliz…

...

… assim de repente, tenho andado tão ocupado com o que me faz feliz que não me recordo de nada que me faça ficar triste…


… lembrei-me agora… não tenho o teu sorriso… 

Acho que o deixei no barco… achas que ainda lá está?

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Corpo estranho


“… Ritmo: Zona Azul…

- “Raios!...” – penso eu, enquanto acelero uma vez mais o passo de corrida... O smartphone diz-me que estou a abrandar o ritmo... Não pode ser, o meu corpo pode dar mais, quer dar mais… a máquina não pode parar…

Adoro sentir que posso dar mais, explorar o limite do esforço que é baseado numa dor que tão depressa aparece como desaparece… como que só para avisar que o esforço não é gratuito e que requer uma boa dose de sofrimento em troca… sem nunca ser um martírio, antes pelo contrário… é um primeiro passo para o prazer de superar a dor.

O meu corpo – longe de ser perfeito e carregado de imperfeições, muitas delas infligidas por mim próprio – é o que de mais valioso tenho, de tão falível, frágil e cujo prazo de vida que é uma incógnita… é meu, sou eu, até quando… só ele o pode determinar… tem esse direito.

O corpo é o que queremos que ele seja… é moldado por perspectivas, a nossa e a que deixamos que os outros tenham e o quanto importante isso é para nós… a mim só me interessa a primeira, não que não exista brio para terceiros… mas é um olhar que não me aprisiona em mim próprio… porque eu não vivo por eles, não corro por eles, faço-o por mim. Não estou à espera deles na meta a bater palmas pelo meu esforço, apenas pelo tempo que demorei a chegar… não lhes devo o meu esforço nem as minhas conquistas...

A melhor forma que tenho de o respeitar e retribuir o que o ele me permite fazer e viver, é desfrutar dele, tirar o máximo partido das suas imperfeições… são o que me tornam único.

Aquela cicatriz, aquele dedo que me dói sempre que faço um movimento mais esforçado… de tanto massacrado que está… Acordo de manhã e não o sinto, a dor desaparece… pronto para me magoar novamente…

Correr mantém-me forte e e concentrado... liberta-me de tudo o que me tenta prender o espírito... 

Aproveito tudo o que o meu corpo me permite alcançar... para que naquele pequeno momento, por breves segundos… não há absolutamente mais nada para além da vontade de viver e de desfrutar de cada lufada de ar inspirado e expirado ao ritmo de uma música... sem preocupações ou problemas de qualquer natureza…

Correr torna-se num momento egoísta, onde liberto frustrações, mágoas e tristezas que ousam importunar-me a mente… naquele momento estou efectivamente sozinho, nada mais existe, porque só existo eu… não estou à espera de um sorriso pelo caminho que depois não surge… só existe o meu suor, que escorre pelo meu corpo e a dor que me faz sentir vivo…

“… Ritmo: Zona Verde…” …

Por um instante esboço o meu sorriso vazio, esgotado de dependências e de expectativas… é a satisfação de por uma vez naquele dia não estar depender de nada nem de ninguém para estar feliz… não estou à espera de nada dos outros… o meu corpo respondeu ao esforço… devo-lhe tudo… a chegada compensou a má disposição e a vontade de vomitar… o sorriso é o meu prémio.

Agora só quero comer, o meu corpo fez-me sorrir, alcançar mais uma meta… merece tudo… é a melhor prisão deste mundo… enquanto ele quiser viver, vou fazê-lo sentir vivo... a cama e um quarto escuro não são opções...

Um dia alguém me disse… “não sabes viver sozinho…” - claro que sei!... não soube fazer outra coisa toda a vida … mesmo quando aparentemente não estava... mas às vezes é bom sentir que está alguém na meta… mesmo que não esteja… ainda que não exista aquele sorrio no caminho.

“… Exercício Terminado…” …

… 00:50:49 … amanhã vou fazer melhor, eu sei que vou… não preciso de mais ninguém para o fazer....

...só preciso ser o meu corpo… não de ser um corpo estranho...

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Mãos Frias


As mãos estão frias... "mãos frias, coração quente"... é o que dizem... peço desculpa pela apropriação de palavras alheias, não gosto de tomar como minhas expressões que não o são para dizer algo que nasce do meu eu, como qualquer palavra que devia ser proferida com uma honestidade e originalidade intrínseca...

É engraçado... não tenho frio... estas mãos deviam estar quentes...

A temperatura do nosso corpo às vezes não se coaduna com o tempo, seja ele frio ou quente, estejamos nós agasalhados ou não...

Chegou o Outono... talvez seja isso. Haverá estação mais confusa? Por vezes chove, depois as gotas que brotam das nuvens dão lugar a um sol radioso que nos deixa com calor, obrigando-nos a despir aquele casaco que gostamos e do qual dependia toda a nossa indumentária que escolhemos após 10 minutos a contemplar o castelo de roupa que gemina da cadeira no canto do quarto...

…ficamos como que despidos, sem o estar, na verdade... perdemos parte daquele aconchego que nos fazia sentir seguros de nós mesmos. Subitamente esse sol radioso que nos fazia sentir confiantes e confortáveis desaparece, deixando no seu lugar uma luz fosca e um arrepio na pele, uma dor de barriga...

Não podia ser Verão o ano inteiro?

Correr à chuva liberta-nos, transcende-nos e, por breves minutos, estamos no topo de um mundo egoísta e egocêntrico onde existimos apenas nós e a chuva que se apodera do nosso corpo... mas quando estamos inertes sob ela, ficamos reféns de uma tristeza profunda, escravos do tempo que se arrasta e que nos relativiza numa apatia... como que solidários com as flores que choram, pétalas de cores vibrantes que deixam escorrer lágrimas sobre si, guardando pequenas gotas, só para elas…

Não podia ser Verão o ano inteiro?

Preservar aquele calor que recebia de ti... aquele sorriso... sim eu sei, não pode ser sempre Verão... eu entendo isso, mas não quero entender... dar tempo ao tempo não me aquece as mãos e as folhas que se acumulam nos passeios não vão voltar para os seus ramos nem serão novamente verdes e belas...

O tempo não trás o que se deixou para trás, resta o vento para levar consigo as folhas secas, desintegrando-as, tornando-as matéria morta, vazias de alma e desprovidas de alegria... o fim de um ciclo... uma renovação.

O velho dá lugar ao novo e o que se rendeu ao tempo e à sua passagem dá lugar a quem ignora o tempo e o seu significado, fazendo de si um significante que tudo desconhece na hora de nascer... próprio da ingenuidade de uma juventude virgem... tudo é novo, tudo é perfeito, nada nos pára... excepto… nós próprios, quando esquecemos que o tempo não é mais do que o que fazemos com ele... quando nada há mais a fazer, restando-nos apenas as recordações do que vivemos, do que não deixámos para o amanhã, que estava agendado para amanhã, não para hoje, véspera do dia que nunca chegou, porque pensámos que havia um tempo para isso... era o que nos tinham dito, não era?...

Eu sei, à mais de uma década que mo disseram... era eu uma jovem folha, guardando as lágrimas de mim próprio, usando-as para manter frescos os sonhos de que fazia parte a árvore que me carrega... hoje fiz desses sonhos raízes que me seguram com a firmeza do que trago no coração, a mesma força para continuar a acreditar que o Verão nunca termina... que apenas trás consigo o Outono para levar as folhas fracas em fé e pobres em espírito, trazendo de seguida o Inverno rigoroso para nos colocar à prova... e quando pensamos que não nos restam mais forças, eis que chega a Primavera que não é mais do que um convite para um Verão que nunca deixou de o ser.

Não podia ser Verão o ano inteiro?

Podia, mas alguém achou que devia haver um tempo para ele...

Eu - chato e teimoso que sou - vou continuar a ignorar o Outono, calçar as sapatilhas e correr enquanto chove porque, ao contrário dos que andam simplesmente à chuva, eu trago-a comigo, da mesma forma que as folhas o fazem... com o mesmo sorriso de sempre, com a mesma vontade de viver que tenho de amar, pois quando deixar de ser assim, irei secar como todas as folhas que se deixaram cair... nesse dia o Verão terminará para mim, não por vontade do destino, mas porque me rendi a ele, dando lugar a outro ser mais corajoso e capaz de fazer os outros felizes, alguém ingénuo como outrora soube ser, capaz de sobreviver a tudo, excepto à impotência de ser o que sou, deixando-me maniatar no que os outros querem que eu seja ou não, e faça... deixando de viver para simplesmente existir...

Não podia ser Verão o ano inteiro?

Claro que pode…

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Silêncio



De olhos fechados, olho o silêncio… apreciando a sua pureza impenetrada pelo som que o polui, preservo-o para que as memórias que guardo comigo possam flutuar livremente nas águas calmas dessa melodia inaudível que - abjecta ao som das palavras - me permite resgatá-las de um passado mais ou menos distante...

Da janela entreaberta sai um tímido som metálico da preciana, como que num manifesto contra a paz de espirito em que estou mergulhado e do qual não quero sair, porque não tenho para onde ir e quem abraçar… não quero sair daqui, deixem-me aqui… porque daqui só quero sair embalado nos braços da mulher que amo.

Levanto o olhar para a janela em sinal de reprovação pela interrupção de um momento que era perfeito… um momento que era uma prosa, composta por palavras que faziam todo o sentido… que rimavam e que, de repente caíram pelo chão perdidas, estilhaçadas pelo barulho que as levou de mim… e agora… agora sinto a tua falta…

Fecho novamente os olhos e vejo-te uma vez mais… no silêncio dos afectos, no calor do meu corpo, apenas denunciada pelo brilho dos meus olhos… sim és tu… reconheço a tua silhueta magra, linhas curvas disfarçadas aqui e acolá por imperfeições perfeitas… reféns de um dogma que te aprisiona e do qual te queres e exiges libertar sozinha, ainda que presa pelo medo da aceitação, medo de errar e de não estar ao nível que pensas ser-te exigido por já não seres mais uma criança… queres ser a mulher que és mas que desconheces ser… o teu eu, que ainda não te foi apresentado porque insistes em querer ver algo diferente… és o que és, o que eu quero, só para mim com o egoísmo próprio de quem ama.

Quero dizer que te amo mas não posso… vai estragar o silêncio que é apenas teu…

… o texto que estou a escrever, enquanto apanho as palavras do chão não é perfeito… a obra não tem de ser perfeita - nunca o é - mas tem de fingir que o é, ao som dos lábios de quem a lê...  tem de estar à altura dos teus, ainda que estes não o ditem… pois a eles não lhes é pedido ou exigido que o façam… estão destinados a ouvir enquanto escrevem versos de amor no silencio de um olhar com as pálpebras fechadas protegendo-o da luz, que não deixa ver e que encandeia o espírito… não têm de se ver, apenas têm de te sentir… porque o que sinto não se vê… seria como ver-me naquilo de que sou feito… de ti.

Sentir as palavras que não são proferidas mas que são escritas em código pelo teu toque na minha pele… o que dizem, gemina entre a minha alma e os meus afectos, preso algures entre os dois, mas nunca refém de nenhum deles… apenas cúmplices do que sou e do que trago comigo…

E o que sinto… meu Deus, onde estão as palavras que me caíram no chão que que tinham aquela estrofe perfeita para ti… terei de esperar por ti novamente ao por do sol, onde mora a paz de que é feito o meu silêncio, para que o barulho das ondas dêem lugar à tua respiração ofegante e a brisa que me envolve se torne a tua envolvência em mim…

Porque é no silêncio que te encontro quando não estás comigo e que me faz sentir completo, sem nunca o estar… pelo menos até ao momento em que te toco e o silêncio das palavras e a escuridão da luz dão lugar a um leve arrepio na pele e um beijo no teu pescoço.

Por momentos, posso-te perder ao som de uma música, na distância de um gesto... mas estarás eternamente no meu silêncio… porque é nesse momento em que és tudo o que eu gostaria de ter e não tenho… ao mesmo tempo que é tudo o que consegui guardar de ti… e tudo se resume à tua ausência… o teu lugar por preencher mas que será eternamente teu e insubstituível… esse vazio é a cama que espera por ti, a minha mão que espera pela tua... é o nosso silêncio.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Luz



Podia invejar a luz que irrompe pelo teu olhar e ilumina os teus lábios… ou a suave brisa que atravessa e delimita o teu rosto. O mesmo rosto que serve de berço ao teu sorriso e serve de tela aos desenhos infindáveis e invisíveis que faço com o toque de um dedo, tão envergonhado quanto atrevido… desenhos que nem eu sei como são nem como terminam, fruto de um desejo insipiente de te ter por perto e colada a mim. 

Mas é essa luz que revela a paleta de cores de que é feito o teu olhar por quem me apaixono cada vez que ouso admirar… e é a mesma brisa que me faz arrepiar e sentir cada poro do meu corpo quando beijo a tua pele e retoco com os meus lábios os desenhos outrora esboçados pelo toque das minhas mãos…

Não é inveja… é o desejo de testemunhar a tua beleza, a pureza e o calor da tua pele através do mundo que te rodeia quando a minha ausência é a minha prisão...

É dizer-te que te amo e sentir que as palavras não estão à altura do que sinto… temer que penses que apenas te amo, apenas... quando na verdade o que sinto é muito mais do que qualquer som proferido pela minha boca ou palavra que ouse escrever na tua pele… vai para além das palavras que se tentam apoderar do que tu és para mim… quando tu és tudo para mim.

Não te consigo dizer humildemente o quanto te amo sem me colocar em bicos de pés, mas tal como é a luz que que cria uma fotografia ou define o espectro das cores na natureza, deixa-me fazer-te sorrir e mostrar o quanto mais bonito e perfeito é o mundo contigo na minha vida…

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Gosto de ti



O que é gostar de alguém? É preencher uma ficha com pré-requisitos para ver se gostamos da característica A e B, se a C nos incomoda ou até se a D nos dá muito jeito?

Não, gostar é gostar… desde o primeiro olhar, sem saber o que está por detrás desse mesmo olhar… é beijar e conhecer um único beijo… aquele com saber a pastilha elástica de canela, com o coração aos saltos, de tal forma que não nos lembramos de mais nada para além do beijo e do sabor a canela…

Gostar não requer grandes análises ou procura de respostas… porque não há perguntas.

É um sentimento espontâneo e quanto mais simples for, mais puro e verdadeiro se torna…

Complicar isso é complicar o que há de mais simples no mundo. E quando gostar deixar de ser simples, deixa de fazer sentido. Porque não tem de nos fazer pensar, só tem de nos fazer felizes… apenas isso. 

E se não faz, estamos no local errado, com a pessoa errada.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Procurar-te


Espero por ti, quero esperar por ti, mas deverei fazê-lo? Poderei fazê-lo?

Pior do que fazer uma escolha errada, é não escolher errado… ficando sem saber que a outra era a escolha correta.

Quero errar, quero falhar… quero faze-lo no sentido que, mesmo a pior das decisões me irá levar até ti, na esperança de te ver no final à minha espera… Mas mesmo que não estejas lá, não faz mal, quero saber que te procurei e mesmo sabendo que não te encontrei, quis encontrar-te.

Podes não estar aqui comigo, mas acredita que estás… porque guardo comigo o melhor de ti, a melhor parte… aquela que é só minha e que mais nenhum homem terá. Aquela que mais ninguém irá procurar pois apenas eu conheço a sua existência, porque fui o único a procura-te verdadeiramente.

E quando te encontrei, jurei guarda-te apenas para mim. Guardei-te até hoje e vou continuar a faze-lo. Recordar o passado não me deixa triste por ter perdido qualquer coisa… não, não perdi… em vez disso ganhei, guardei e trago comigo, como algo que me pertence, que faz parte de mim e sem o qual não posso viver. Porque não acabou e não vai acabar enquanto a pureza do teu olhar e os teus tiques estúpidos continuarem a fazer-me sorrir sozinho no meio da rua como um tolinho, cada vez que ouvir aquela música, no momento em que o sol bater no meu rosto, me obrigar a fechar os olhos e me fizer virar a cara, recordando-me que já estive ali contigo.

Vou continuar a procurar-te, porque ao fazê-lo vou encontrar quem realmente procuro….

domingo, 15 de junho de 2014

Amar



Amar… que coisa estranha é essa… que não é algo que o é no mesmo momento que decide querer ser outra coisa qualquer. Não, não é uma coisa… são muitas coisas.

É querer tocar, e TOCAR… é querer beijar, e BEIJAR… e fazê-lo com todo o nosso folego e toda a energia e força com que contraímos os olhos até que os lábios recuem ansiosamente, sedentos do próximo beijo.

Amar não é esperar, nem fazer esperar… por algo ou por alguém… não… o amor não se faz esperando…. O amor vive-se intensamente em cada olhar e cada palavra e faz isso alimentando-se do próprio tempo, devorando-o e guardando-o invejosamente só para si sem o partilhar, porque o tempo só existe naquele momento em que dura o beijo, o toque ou aquele abraço…

Porque esperar pelo amor não faz sentido… é como esperar pelo ar que respiramos. Não esperamos por respirar ou morremos asfixiados pela ausência do oxigénio que nos mantém vivos.

O amor não se deixa asfixiar pelo tempo… o tempo pausa-se com lábios que amam, que beijam, que se sentem… num momento apenas interrompido pelo abrir dos nossos olhos com um olhar cúmplice de si mesmo...

Amar é amar, não porque queremos mas porque simplesmente amamos, porque deixamos de saber o que fazer, com quem e onde… porque deixamos de amar ou ser amados…

Podemos escolher viver sem amar, mas só podemos amar, vivendo…

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Confio em ti...


Podemos confiar no que sentimos?… Mas o que é isso… confiar…

Será acreditar em alguém pela segurança e bem-estar que o seu conforto nos dá? É pensar cegamente que independentemente do que possa acontecer, essa pessoa estará sempre connosco “nos bons e nos maus momentos”? Ou será simplesmente percorrer um caminho que, sendo diferente, é no entanto comum … 

Mas isso não é apenas confiança… confiar é simplesmente acreditar, viver sem o estigma da mentira, por mais pequena e inocente que ela seja. Não, isso não é confiança… é cumplicidade.

É deixar que nos tirem uma foto… e não nos preocuparmos com o resultado, deixando tudo nas mãos da pessoa que a tira, no pleno conhecimento de que ela verá muito mais para além do nosso rosto, se a foto fica bem ou mal… ela verá os nossos olhos... E no final é isso que sai na fotografia e não há abertura ou velocidade de obturador que nos dê esse resultado.

Saber o que o outro pensa, precisa, sente… saber dar a mão mesmo antes de o outro precisar dela, é fechar os olhos e sentirmo-nos aconchegados apenas com a sua presença… embalados apenas pela sua voz e pelo seu espirito… mas mais importante que saber tudo sobre a outra pessoa, é sabermos sobre nós próprios, saber o que realmente sentimos e queremos… Porque gostar de estar com essa pessoa é fácil, difícil é querer estar com ela, difícil é saber que queremos estar com ela, com tudo o que isso implica.

Amar não é sermos escravos desse amor e dessa cumplicidade…  é viver a vida na sua plenitude pelo prazer de viver amando o que temos de mais precioso, o que fazemos…  e poder agarrar esse dom extraordinário e único que é a vida e partilhar-lho com alguém… porque o amor não e apenas  dar o que temos, não é uma troca, não é um investimento, não é um sacrifício e não é certamente uma aventura… não é um caso… amar é isso mesmo, simplesmente amar… e partilhar… porque só podemos fazer alguém feliz se primeiramente nós próprios nos predispusermos a sê-lo… amar é o momento em que dois corpos se unem e transformam pequenos gestos como o toque e o beijo num momento sem passado nem futuro, o presente em toda a sua plenitude… em que mais nada nem ninguém existem…

Primeiro confia-se, tornamo-nos cúmplices e só depois amamos…

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Olhares



Dois passos… foi tudo o que ele foi capaz de dar no momento em que a viu diante de si…

Ainda que atemorizado e congelado por um arrepio que lhe percorria o corpo, sabia que tinha de se afastar… porém, cada centímetro do seu corpo recusava faze-lo… a cada passo que dava, mais tenso o seu corpo ficava e mais forte o seu coração batia. Via-a cada vez mais perto, sem nunca se aproximar verdadeiramente dela... porque não queria, não podia, não era capaz...

Do outro lado, ela ergueu-se e, escondendo o seu olhar no horizonte, resguardou-se numa dança, plena de graciosidade que seguia o ritmo do seu vestido de seda, esvoaçando a um ritmo ditado por uma suave brisa… Indiferente a ele - mas consumindo o seu olhar - alimentava-se do seu fascínio e deleitava-se no seu tímido desejo, sedenta da sua atenção…

Ao fundo, atrás dela, a multidão assistia passivamente a tudo, num ruidoso silêncio enquanto observava os dois.

Ela estava feliz, olhava para trás, sentia-se parte daquela multidão e demasiado próxima de alguém que não o era, alguém de quem não queria depender por receio de deixar de ser ela própria…

A sua ambição e amor-próprio eram mais firmes que o seu coração, cego por um desejo pelo desconhecido em detrimento de alguém tão simples, tão insignificante, tão igual a ela… e então ignorou-o uma última vez…

Incapaz de dar mais de si - embora disposto a ficar ali o tempo que fosse preciso – e indiferente à multidão e ao seu próprio orgulho, indiferente à indiferença... ele fechou os olhos e recuou.

Sabia que mais tarde ou mais cedo tinha de partir pois aquele pedaço de terra deixara de ser o seu lugar, lugar que, na realidade, nunca foi outra coisa senão um cenário, um local de passagem, um caminho…

Suspirou e, voltando-se para ela procurou um último sinal, uma razão, um sorriso, algo que o fizesse sentir que valia a pena, algo que o fizesse viver.

Sem nunca se aproximar, afastou-se novamente, não só dela como daquele lugar...

Inquieta, ela olhou para ele… sentia que tinha ficado algo por dizer. Subitamente, deu conta que não se recordava do seu último olhar… do esboçar do seu último sorriso… assustada, olhou para trás, procurando uma resposta na multidão.

Mas a multidão entretanto partira, deixando-a consigo própria e sem respostas… apenas com o seu vestido de seda…

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Águas calmas...



Porque te escondes? Porque te manténs ancorado a esse cais, ameaçando partir como alguém que prepara um salto sem nunca o concretizar… Será o pôr do sol quem te mantém todos os dias preso a este pedaço de terra, testemunha de um presente escravizado por um passado demasiado doce para uma realidade que te recusas, mais do que a viver, a aceitar como tua?

Essa velha corda, mais do que cúmplice, é a tua melhor desculpa… culpas essa frágil e gasta corda da mesma forma que julgas a maré demasiado calma para te arrastar com ela… sabes que não é ela que se recusa a levar-te… não, não é ela que está incumbida de te libertar, és tu… e mesmo que assim fosse, tal nunca aconteceria pois não o desejas.

Tal como a corda é apenas uma forma de justificares a tua inação e inoperância, a maré será sempre apenas um meio para saíres desse local a que chamas um porto seguro…

Medo… ansiedade ou será antes angustia… medo de falhar, de meter água? Os barcos foram feitos para flutuarem até naufragarem… não servem para mais nada. Um barco que não navega não é um barco mas um aglomerado de madeira que desafia a erosão à superfície da água… tal como o ser humano foi criado para amar até ao seu último suspiro…

Não escolhas quem queres amar… simplesmente ama, solta essas amarras e navega até onde o desejo te levar, até onde a paixão te insurgir a ir. A ansiedade é própria de quem quer ser feliz mas a angústia está reservada para quem nada fez. Não vivas um amor que não é teu… porque um dia esse amor vai descobrir o seu verdadeiro dono e o teu cais, outrora ocupado, deixou de ser local de passagem… restam as amarras e a madeira velha… resta-te partir e começar de novo.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Despertar

Mais um dia nasce... novo, dizem eles... a mim parece-me igual a ontem e a todos os dias que se seguiram ao dia em que estive acordado da ultima vez.

Acordo e, apesar do sonho ter terminado... continuo a ver-te.

Um raio de luz rompe pelo teu olhar tímido e frágil desenhando no teu rosto luminoso a mais bela das planícies... meu Deus, como a invejo... essa luz que consegue ir ao lugar mais profundo da tua alma e, ainda que os teus olhos brilhem intensamente e personifiquem duas gotas da mais pura e translúcida água - mesmo assim - essa luz não me devolve as respostas que vão no teu coração questionado pelas perguntas que os meus lábios escreveram.

Quero saber, procuro saber, temo saber e subitamente quando essa luz ameaça revelar o que transporta consigo, o que tanto procuro saber, eis que fujo... para o lugar mais meu, aquele onde mais ninguem entra para alem de mim próprio e das minhas perguntas. Coloco o rosto debaixo da almofada como uma criança mimada que não quer ser contemplada e não quer sequer ouvir chamar pelo seu nome...

A ignorância e a ausência desse conhecimento conforta a incerteza alimentada por essa figura protetora e ternurenta - ainda que ingénua que apenas quer o melhor para nós - chamada esperança, frutuosa em pequenas mentiras piedosas, que nos envolve e conforta numa noite de tempestade, como uma mãe embala o seu Ser mais precioso.

Aquele momento em que tudo parece parar e, com um leve suspiro, se aproxima do nosso ouvido como se fosse revelar o maior segredo da humanidade, dizendo apenas "calma, vai tudo correr bem"...

Sim, quero saber... mas não me digas, mostra-me apenas... porque quando o decidires revelar, já os teus olhos me disseram...