Ainda que atemorizado e congelado por um arrepio que lhe percorria
o corpo, sabia que tinha de se afastar… porém, cada centímetro do seu corpo
recusava faze-lo… a cada passo que dava, mais tenso o seu corpo ficava e mais
forte o seu coração batia. Via-a cada vez mais perto, sem nunca se aproximar
verdadeiramente dela... porque não queria, não podia, não era capaz...
Do outro lado, ela ergueu-se e, escondendo o seu olhar no
horizonte, resguardou-se numa dança, plena de graciosidade que seguia o ritmo
do seu vestido de seda, esvoaçando a um ritmo ditado por uma suave brisa… Indiferente
a ele - mas consumindo o seu olhar - alimentava-se do seu fascínio e deleitava-se
no seu tímido desejo, sedenta da sua atenção…
Ao fundo, atrás dela, a multidão assistia passivamente a
tudo, num ruidoso silêncio enquanto observava os dois.
Ela estava feliz, olhava para trás, sentia-se parte daquela
multidão e demasiado próxima de alguém que não o era, alguém de quem não queria
depender por receio de deixar de ser ela própria…
A sua ambição e amor-próprio eram mais firmes que o seu
coração, cego por um desejo pelo desconhecido em detrimento de alguém tão
simples, tão insignificante, tão igual a ela… e então ignorou-o uma última vez…
Incapaz de dar mais de si - embora disposto a ficar ali o
tempo que fosse preciso – e indiferente à multidão e ao seu próprio orgulho, indiferente
à indiferença... ele fechou os olhos e recuou.
Sabia que mais tarde ou mais cedo tinha de partir pois
aquele pedaço de terra deixara de ser o seu lugar, lugar que, na realidade, nunca foi outra coisa
senão um cenário, um local de passagem, um caminho…
Suspirou e, voltando-se para ela procurou um último sinal,
uma razão, um sorriso, algo que o fizesse sentir que valia a pena, algo que o
fizesse viver.
Sem nunca se aproximar, afastou-se novamente, não só dela como
daquele lugar...
Inquieta, ela olhou para ele… sentia que tinha ficado algo
por dizer. Subitamente, deu conta que não se recordava do seu último olhar… do
esboçar do seu último sorriso… assustada, olhou para trás, procurando uma
resposta na multidão.
Mas a multidão entretanto partira, deixando-a consigo
própria e sem respostas… apenas com o seu vestido de seda…

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