quinta-feira, 22 de maio de 2014

Águas calmas...



Porque te escondes? Porque te manténs ancorado a esse cais, ameaçando partir como alguém que prepara um salto sem nunca o concretizar… Será o pôr do sol quem te mantém todos os dias preso a este pedaço de terra, testemunha de um presente escravizado por um passado demasiado doce para uma realidade que te recusas, mais do que a viver, a aceitar como tua?

Essa velha corda, mais do que cúmplice, é a tua melhor desculpa… culpas essa frágil e gasta corda da mesma forma que julgas a maré demasiado calma para te arrastar com ela… sabes que não é ela que se recusa a levar-te… não, não é ela que está incumbida de te libertar, és tu… e mesmo que assim fosse, tal nunca aconteceria pois não o desejas.

Tal como a corda é apenas uma forma de justificares a tua inação e inoperância, a maré será sempre apenas um meio para saíres desse local a que chamas um porto seguro…

Medo… ansiedade ou será antes angustia… medo de falhar, de meter água? Os barcos foram feitos para flutuarem até naufragarem… não servem para mais nada. Um barco que não navega não é um barco mas um aglomerado de madeira que desafia a erosão à superfície da água… tal como o ser humano foi criado para amar até ao seu último suspiro…

Não escolhas quem queres amar… simplesmente ama, solta essas amarras e navega até onde o desejo te levar, até onde a paixão te insurgir a ir. A ansiedade é própria de quem quer ser feliz mas a angústia está reservada para quem nada fez. Não vivas um amor que não é teu… porque um dia esse amor vai descobrir o seu verdadeiro dono e o teu cais, outrora ocupado, deixou de ser local de passagem… restam as amarras e a madeira velha… resta-te partir e começar de novo.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Despertar

Mais um dia nasce... novo, dizem eles... a mim parece-me igual a ontem e a todos os dias que se seguiram ao dia em que estive acordado da ultima vez.

Acordo e, apesar do sonho ter terminado... continuo a ver-te.

Um raio de luz rompe pelo teu olhar tímido e frágil desenhando no teu rosto luminoso a mais bela das planícies... meu Deus, como a invejo... essa luz que consegue ir ao lugar mais profundo da tua alma e, ainda que os teus olhos brilhem intensamente e personifiquem duas gotas da mais pura e translúcida água - mesmo assim - essa luz não me devolve as respostas que vão no teu coração questionado pelas perguntas que os meus lábios escreveram.

Quero saber, procuro saber, temo saber e subitamente quando essa luz ameaça revelar o que transporta consigo, o que tanto procuro saber, eis que fujo... para o lugar mais meu, aquele onde mais ninguem entra para alem de mim próprio e das minhas perguntas. Coloco o rosto debaixo da almofada como uma criança mimada que não quer ser contemplada e não quer sequer ouvir chamar pelo seu nome...

A ignorância e a ausência desse conhecimento conforta a incerteza alimentada por essa figura protetora e ternurenta - ainda que ingénua que apenas quer o melhor para nós - chamada esperança, frutuosa em pequenas mentiras piedosas, que nos envolve e conforta numa noite de tempestade, como uma mãe embala o seu Ser mais precioso.

Aquele momento em que tudo parece parar e, com um leve suspiro, se aproxima do nosso ouvido como se fosse revelar o maior segredo da humanidade, dizendo apenas "calma, vai tudo correr bem"...

Sim, quero saber... mas não me digas, mostra-me apenas... porque quando o decidires revelar, já os teus olhos me disseram...